Opinião - A arte imita a vida? por Vasco Pereira
Ou é a vida que imita a arte?
As minhas viagens entre casa e trabalho conseguem acumular em muito pouco tempo um saldo de tempo da minha vida muito significativo. Trinta minutos a ir, trinta a vir. São sessenta minutos por dia, cinco horas por semana, 25 horas por mês, 275 horas por ano (cerca de 11 dias do ano!). Desisti de fazer as contas aos 40 anos de descontos para não deprimir com o tempo que perdi a enervar-me no trânsito.
Estes números fizeram-me pensar: "O que posso fazer para rentabilizar este tempo?"
Teria de ser algo legal e relativamente simples, útil. Comer e beber está fora de questão. Fazer a barba como assistia fazerem nos filmes dos anos 80-90 é comicamente impensável.
Todos ouvimos música ou notícias nos nossos auto-rádios. Porque não algo do género?
Mas eu queria algo diferente. Procurei e encontrei algumas propostas que vos trago e que poderão achar interessantes.
Utilizando aplicações de streaming como o Spotify comecei a fazer download na rede de casa (para não gastar dados) e comecei a ouvir audio-livros e audio-peças.
É verdade, isso mesmo, audio-peças!
De repente é como sentir-me a ouvir um teatro produzido propositadamente para ser ouvido. E que coisa extraordinariamente rica que isso é. As sonoplastias e as dicções de muitíssimos bons actores valem pela vida. Da mesma forma os audio-livros trazem-nos muita riqueza e permitem-nos aumentar a nossa cultura e fazer-nos pensar em mundos e situações que não imaginámos.
A minha primeira experiência foi: O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wild.
Devorei as 4 horas deste audio-livro numa única semana. Não o li, ouvi, mas a informação e a magia do livro estava lá e inscreveu-se dentro de mim.
Às páginas tantas, uma personagem faz um comentário que cito:
"I love acting. It is so much more real than life."
Traduzindo: "Amo a arte da atuação. É muito mais real do que a própria vida"
Ao longo do livro uma personagem que muito me prendeu foi o paradoxal Lord Henry. A forma continuada como esta personagem coloca o valor oposto nos objectos torna-o único e mete-nos a pensar no significado que damos às coisas.
Porque é que representar é mais real do que a vida? Como é que isto se aplica?
No dia a dia falamos dos mais variados assuntos e descrevemos situações e peripécias aos nossos amigos. Quando fazemos descrições de uma situação a alguém estamos como que a montar um cenário. Colocamos as pessoas em cena, até imitamos a forma das pessoas falarem!
"E ele, e ele, o que é que disse?"
"Esbugalhou os olhos e disse: Estás parva!?"
E rimo-nos.
Todos sabemos que o mais provável foi o rapaz não ter dado ênfase nenhum à resposta, mas nós adoramos dramatizar, interpretar e criar esta "arte". Neste aspecto, sem dúvida, acredito que a vida imita a arte e a alimenta.
A arte imita a vida e a vida imita a arte. Mas este jogo de palavras não chegam nem perto para satisfazer uma descrição válida para o que é a vida e a arte.
A arte é uma experiência e uma expressão (pelo menos para mim), do que vivi, vivo, viverei, mas também do que nunca irei viver nem experimentar. Eu posso escrever uma peça com elementos femininos e explorar as suas feminilidades sem nunca o experimentar. Posso fazê-lo com bom ou mau resultado, é certo, mas é a minha experiência em construção e se uma peça com valor artístico sair do meu cérebro através dos meus dedos para a comunidade então todos ganhamos. Mas isto é já um assunto para outro dia.
Em resumo: descobri esta magnifica forma de estimular o bichinho da cultura durante uma das tarefas mais monótonas das nossas vidas!
Partilho convosco a Audio-Peça o Retrato de Dorian Gray.
Está em inglês pois o número de fontes em português é quase inexistente para minha infelicidade.
Espero que gostem.
Comentários
Enviar um comentário